O dia em que o Pearl Jam quase acabou

Hey, rocker! Blz?

Normalmente eu pediria licença pra invadir sua tela, mas esse é um tema bombástico, então prefiro chegar chegando e depois a gente vê no que vai dar.

Hoje eu queria falar um pouco sobre o Pearl Jam, uma das maiores bandas dos anos 90 (e de hoje em dia também, óbvio). A cada retorno deles ao Brasil eu sempre fico pensando em como será aquele setlist incrível que eles fazem questão de variar a cada apresentação (toca Crazy Mary, Eddie Vedder!). Isso só pra deixar a gente maluco, querendo ir em todos os shows que forem possíveis (vai dizer que não?). Comigo isso começou já na primeira vez que eles vieram pra esses lados, em dezembro de 2005, no Pacaembu em São Paulo. 

Na época, não dava pra perder a chance e comprei sem medo ingresso pros dois dias. Acharam que eu tinha pirado: “pra que ver duas vezes o mesmo show?“, “tá sobrando grana?“. Ah, meus amigos, mas a recompensa veio em dobro: depois de uma primeira apresentação explosiva no dia 2 (o que foi aquela muvuca em Even flow, cara?), viria outro impecável e totalmente emocionante no dia 3. Foi histórico.

Quem tava lá viu e não vai me deixar mentir. Tudo o que os caras fazem é verdadeiro, autêntico e talvez seja por isso que os fãs criem uma ligação tão sincera com a banda. Só de lembrar a iniciativa deles com relação ao desastre da Samarco em Minas Gerais em 2015, já dá pra ver que isso não mudou com o passar dos anos. Foi por isso que comprei dois ingressos. Tá, mas e daí?

Essa é a nossa homenagem ao Pearl Jam. Com exclusividade Santo Rock que você só encontra aqui. Clique e confira!
Essa é a nossa homenagem ao Pearl Jam. Com exclusividade Santo Rock que você só encontra aqui. Clique e confira!

Uns dez anos depois daquele primeiro show (é, tô véio), resolvemos preparar uma homenagem especial aqui na Santo Rock. Não queríamos cair no óbvio e foi assim que começamos uma pesquisa mais profunda, que se provou surpreendente!

Fazer uma estampa para o PJ é sempre desafiador porque a banda não tem uma identidade visual muito fixa. Tem na verdade um zilhão de coisas produzidas pelos mais variados artistas absolutamente incríveis. Você fica bobo de olhar os cartazes. Dá uma espiada nos exemplos abaixo:

UMA INFINIDADE DE TRAÇOS, ESTILOS E CORES: Dos cartazes mais simples ao mais elaborados (até de shows com participações especiais), sempre vemos a arte do PJ se tornar um espetáculo a parte.
UMA INFINIDADE DE TRAÇOS, ESTILOS E CORES: Dos cartazes mais simples ao mais elaborados (até de shows com participações especiais), sempre vemos a arte do PJ se tornar um espetáculo a parte.

Começamos a pensar em algo em torno da música Alive, ou ainda da trilogia-mini-opera Mamasan (vou deixar essa história da ligação de Alive, Once e Footsteps pra uma próxima), mas não conseguimos sair do lugar. Foi aí que, lembrando do quão única é a experiência de viver cada show diferente deles, veio a ideia de usarmos uma apresentação marcante como tema e criar a nossa própria versão do poster. O problema é que eu já sabia que isso também significava que a guerra estaria instaurada aqui no Santuário. Como escolher um só show, um único momento em mais de 20 anos de carreira? Dá? A gente tentou:

“Vamo fazer de um show deles aqui no Brasil!”
“Não, mano… tem que ser de um show em Seattle.”
“Mas o Eddie Vedder nem de Seattle era, faz então do primeiro show deles.”
“Primeiro show não… deve ter sido miadasso.”
“O show mais cheio?”
“Algum com o Neil Young?”
“Mudhoney?”
“…”

Puxa daqui, puxa de lá e quase fizemos um Frankenstein. Afinal, se não dá pra escolher, por quê não inventar? Junta aí a foto de um com a data do outro, com o lugar de um terceiro e já era. Ninguém vai saber. Ninguém? Nós iríamos saber e simplesmente não dá pra acordar todo dia e viver uma farsa. A coisa fica sem alma, que nem aquelas camisas polo de numerinho no braço que era moda até outro dia e a galera na rua usava sem nem saber o que quer dizer. Esse não é o jeito que nós fazemos as coisas por aqui.

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Além de uma estampa visualmente bonita, com o jovem Eddie Vedder em uma das suas poses clássicas, queríamos algo com conteúdo, com uma história real e emblemática, que ao mesmo tempo possuísse algum easter egg, alguma mensagem subliminar com ligação direta com a alma da banda. Eis que, depois de revirar a história do Pearl Jam, encontramos a pérola: um show de 17 de abril de 1994 no Paramount Theatre em Nova Iorque. Aos que ficaram com a pulga atrás da orelha, chegou a hora de contar a história que envolve essa data tão significativa na biografia do PJ.

 

O DIA EM QUE TUDO MUDOU: 17 de abril de 1994, no Paramount Theatre em Nova Iorque. Público estimado: 5.500 pessoas.
O DIA EM QUE TUDO MUDOU: 17 de abril de 1994, no Paramount Theatre em Nova Iorque. Público estimado: 5.500 pessoas.

Esse show foi o último da turnê de quase nove meses que os caras estavam fazendo pelos EUA. Não era só o fim de um ciclo, fechando as atividades do álbum VS. Foi também a última apresentação do Dave Abbruzzese na batera como membro oficial (o que já é algo marcante por si só). Mas não pára por aí.

Que fã não lembra da treta com a Ticketmaster? Nessa época isso tava pegando fogo, com o PJ distribuindo os melhores ingressos pra galera do fã clube e rádios locais, reforçando o boicote e ignorando as exigências abusivas que se acumulavam. Mas havia algo ainda mais obscuro rolando e foi isso o que nos moveu. Foi isso que nos comoveu.

Naquele momento, ninguém sabia exatamente o que ia ser do Pearl Jam. Antes da apresentação, Eddie havia dado uma entrevista ao Melody Maker da Inglaterra dizendo que talvez esse fosse o último show deles. Sim, essa é a hora que a gente se desespera e grita “nãooooooo”.

Nas palavras dele, “This could be our last show in fuckin’ forever as far as I’m concerned” (tradução sincera: “Fodeu, cara, se pá esse é o nosso último show e já era, chega. Falou, valeu”). E por quê isso? O que levou esse cara, que hoje consideramos tão equilibrado, a dizer essas palavras (as em inglês, não a minha tradução cretina)? Calma, vai ficar pior.

Claro que não esquecemos das rockers. Com corte especial tratamento premium, essa peça virou item disputado a tapa no estoque. Clique e confira!
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Durante esse show uma fã berrou “Eddie, eu te amo!”. Talvez ela recebesse um “obrigado” de volta ou tiraria dele pelo menos um sorriso tímido. Ou pode ser que ele nem sequer percebesse. Mas ele ouviu, sim, ele ouviu. E respondeu: “Não, você não me ama. Você ama quem você pensa que eu sou e a imagem de mim que você criou na sua mente”. Tenso.

A morte de Kurt havia mudado tudo. Ele não sabia se poderia continuar fazendo aquilo exatamente por situações assim, que se repetiam show após show. Onde isso vai dar? Existe uma evolução musical, um caminho pra chegar em algum lugar ou é tudo só uma repetição em nome do entretenimento?

Kurt cantou Here we are now, entertain us e caiu como uma luva naquela situação. Nas palavras de Eddie: “I think this is going to be the last thing for a long time. I’m just gonna live in a fuckin’ cave with my girlfriend. I don’t think I’ll be showing my face for a while. I don’t think I’ll be making any fuckin’ videos. Maybe we’ll eventually do some shows or something. I just don’t know.

Imagine um mundo sem a viagem conceitual do Vitalogy. Nada de ImmortalitySpin the Black Circle, Not for you. Sem a energia “roadtrip” do Yield com Given to fly e Brain of J. Sem a experimentação de Nothing as It SeemsI Am Mine a retomada visceral de World Wide Suicide. Esquece, você nunca teria visto os clipes de Do the Evolution” com a mão de Todd McFarlane e The Fixer” dirigido por Cameron Crowe.

É isso mesmo o que você ouviu, ele disse “I don’t think I’ll be making any fuckin’ videos“. Não dá, né? Melhor eu parar por aqui.

Foi assim que escolhemos esse momento específico, entre tantos outros aparentemente tão ou mais importantes. Não precisa ser a data mais especial, a mais marcante. Precisa só ser relevante a ponto de transformar o mundo que você conhece.

É algo pequeno, que de perto a gente não enxerga muito a diferença, mas de longe poderia ter revirado completamente a história de tantas pessoas, a minha vida, a sua. Eu não teria ficado com os olhos úmidos naquele show no Pacaembu na primeira vez que ouvi Black ao vivo (justo eu, que nem sou chorão). Não teria usado Just Breathe de tema no meu casamento, nem me emocionaria sem motivo algum toda vez que o bendito refrão de Given to fly começa.

É tanta coisa que simplesmente não dá pra imaginar como seria. Dá?

Essa realidade trágica não existe (grazadeus) e sim, os caras continuaram e construíram uma carreira fodástica que a gente acompanha desde moleque. Não importa se você já foi a algum show deles, mas sim que reflita e se lembre daquele 17 de abril de 1994, quando tudo poderia ter sido diferente. Nossa homenagem vai muito além de uma simples estampa.

É sim um agradecimento por, de certa forma, esse show ter significado pra própria banda de que o lugar deles era em cima dos palcos e dentro dos estúdios, de que essa era a missão deles por aqui. Depois me diz se não fez diferença no mundo esses caras continuarem juntos fazendo o que fazem de melhor.

Tenho certeza de que você não vai conseguir mais olhar pra essa essa camiseta com os mesmos olhos. E essa é a ideia. Nada é tão simples e raso na nossa forma de criar. Isso só é possível porque, assim como você, vivemos, respiramos e transpiramos de verdade o Rock todos os dias.

And he still gives his love, he just gives it away
The love he receives is the love that is saved
And sometimes is seen a strange spot in the sky
A human being that was given to fly
– Given to fly, Pearl Jam

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Entre seus grandes feitos já enfrentou uma multidão pra ver os Rolling Stones em Copacabana e dirigiu de San Francisco a Los Angeles só pra conferir uma banda cover do Doors no Whiskey a Go Go. Lamenta não ter visto James Brown ao vivo e acredita que os vícios fazem parte das virtudes assim como os venenos dos remédios.

11 Comments Join the Conversation →

  1. Julio Bitencourt

    Wow. Que texto foda! Eu também estava lá em 2005, aliás fui nos dias 2, 3 e 4 no Rio de Janeiro (estou cansado até hoje). E Just Breathe também foi tocada no meu casamento, mas como tema da minha esposa! Muito foda esta estampa!

    Reply
    1. Demiro Ferrari

      Caceta, Julio! Que folego. Emendar ainda esses dia no RJ não deve ter sido moleza mesmo, ein. True fan! Just breathe é simplesmente monstra. Valeu pelas palavras, um abraço!

      Reply (in reply to Julio Bitencourt)
  2. Pedro

    Parabéns pelo texto muito bom… vou comprar a camiseta.

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  3. Vinicius Rangel

    Cara, eu estive em 2010 no morumbi, 2013 se não me engano no loolapalooza e 2015 no morumbi novamente..o show de 2015 foi emblemático com uma setlist pra lá de perfeita.
    Excelente artigo, hoje sem Pearl Jam minha vida seria depressiva kkk, é meu remédio diário.

    Reply
    1. Demiro Ferrari

      É o nosso, Vinicius! Eu que agradeço os comentários. Tocando agora Nothingman!

      Reply (in reply to Vinicius Rangel)
  4. André Luiz Lisboa

    Muito legal esse texto, totalmente preciso, mas pra mim o melhor show foi de 2010, por que? 1,meu aniversário, 2,meu primeiro show em estádio,3, o fim de um siclo pesado da minha vida, 2 câncer e um pé na bumda, ma tudo valeu apena de dia especial, pois tinha acabado de terminar a quimio terapia e começado um relacionamento com minha amiga de longa data i hoje em si tornou minha esposa, como falei no início, o fim de um ciclo pesado da minha vida,e o início de uma história linda.

    Reply
    1. Demiro Ferrari

      Caceta, André. Não tem nem o que falar, que transformação. Foda como momentos assim que pareceriam tão triviais para algumas pessoas no esquema “foi só um show” são símbolos tão importantes pra gente que vive isso e pras bandas, que participam disso. Valeu demais pelos comentários, vamo pra cima!

      Reply (in reply to André Luiz Lisboa)
  5. Hugo Paixão

    Muito legal o texto. Já vi documentários da banda e não lembrava dessa treta ae rs .. fui no show deles em 2013 no Lollapalooza, com minha mãe e minha tia, ambas super fãs, e me “contaminaram” hehe. Sou do ES; e ainda bem que a banda não se desfez lá em 94!! PJ melhor banda s2′

    Reply
    1. Demiro Ferrari

      Assino embaixo, Hugo! Manda um beijo pra sua mãe e tia que te trouxeram para o incrível caminho do PJ!

      Reply (in reply to Hugo Paixão)
  6. Douglas Oliveira

    Foi um puta Texto mesmo, palavras mas que de um fã, um mera seguidor de coração.
    essa banda realmente meche com todos nós, e com certeza valeu muito a pena deles terem continuado juntos. Valeu!!!!!

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  7. Theo Cavalcanti

    Nos’senhora! Arrepiei lendo o texto. Eu meio que já sabia da história (aliás, houve outro momento em que a banda quase terminou – eles contam no filme PJ20), mas suas apaixonadas palavras muito bem colocadas no artigo ficaram demais! Parabéns! Eu também estava no Pacaembu em 2005, assim como na Apoteose dois dias depois, e mais nos shows de 2011, 2013, 2014 (Eddie solo) e 2015! Só quem já esteve lá na plateia pode compreender como um show é diferente do outro e o porquê de os fãs do PJ seguirem os caras pelo mundo! Valeu, brother!

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