Os últimos passos de Kurt Cobain

“Topa passar frio comigo em Seattle no final do ano?”

Foi assim que convidei minha namorada, pelo Whatsapp, a embarcar comigo no que viria a ser a viagem mais transformadora e intensa da minha vida.

O desafio era emocionalmente pesado: além de conhecer todos os picos históricos da cena de Seattle, eu queria percorrer exatamente os últimos passos de Kurt Cobain pela cidade, nos dias que antecederam sua morte em abril de 1994.

A ideia havia surgido semanas antes, quando terminei de ler pela segunda vez a biografia de Kurt (Heavier than Heaven, do brilhante Charles R. Cross), ainda sem conseguir entender o labirinto introspectivo e auto-destrutivo de sua mente.

Eu havia estudado o Nirvana, sua história e especificamente sua vida por mais de 15 anos. Mesmo assim, continuava sentindo que nenhum documentário, filme ou livro tinha chegado perto de decifrá-lo. Eu precisava pular os atravessadores e tradutores, precisava chegar mais próximo de onde tudo começou e terminou.

Então eu fui. Vou te contar agora como isso acabou me ajudando a esclarecer um pouco a personalidade de Kurt e, de quebra, dando origem a uma das coisas mais legais da história da Santo Rock.

Após meses de preparação, no dia 10 de novembro de 2014, estávamos desembarcando em uma Seattle congelante, mas curiosamente ensolarada (são menos de 60 dias de sol por ano!), com um checklist minuciosamente escrito nas semanas anteriores com tudo o que queríamos ver e conhecer na cidade.

Space Needle, a torre futurista é um símbolo da cidade de Seattle e fazia parte do nosso checklist "turístico". Nessa foto, foi coroada por um raríssimo dia ensolarado.
Space Needle, a torre futurista é um símbolo da cidade de Seattle e fazia parte do nosso checklist “turístico”. Nessa foto, foi coroada por um raríssimo dia ensolarado.

Entre pontos turísticos e lugares relacionados a outras bandas grunge da cidade, reservamos um dia para percorrer o provável trajeto dos últimos dias de Kurt Cobain em Seattle antes do lamentável desfecho.

Diversos autores e jornalistas reconstituíram esse percurso através de entrevistas, depoimentos e investigações. Apesar de algumas pequenas diferenças nas versões, existe um consenso sobre alguns pontos dessa via sacra, de modo que focamos naqueles que já foram citados em diferentes versões da história.

Alguns dos pontos importantes para a história do Nirvana e de Kurt Cobain em Seattle podem ser visualizados em mapas criados por fãs em diferentes sites e blogs.
Alguns dos pontos importantes para a história do Nirvana e de Kurt Cobain em Seattle podem ser visualizados em mapas criados por fãs em diferentes sites e blogs.

Kurt chegou a Seattle sorrateiramente pelo aeroporto Sea-Tac, fugindo mais uma vez de uma rehab em Los Angeles e sem avisar a família ou a banda. No vôo acabou encontrando e conversando animadamente com Duff McKagan do Guns n Roses. Típica coincidência irônica de um filme de Hollywood.

De lá, teria seguido direto para o bairro boêmio de Capitol Hill, onde possuía alguns traficantes de confiança. Após conseguir drogas, teria perambulado anônimo pela cidade por pelo menos 2 ou 3 dias, passando por lojas de armas, restaurantes, bares, bocas-de-fumo e até por hotéis de beira de estrada, conhecidos por servir de esconderijo aos junkies nos EUA até hoje.

Tudo isso, antes de seguir para sua mansão e colocar um ponto final em seu sofrimento.

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Ao refazer esses passos, descobrimos que alguns desses estabelecimentos já não existem mais como antigamente, mas grande parte deles continua praticamente intacta. Durante um dia todo, percorremos mais de 15km a pé e outros tantos de táxi e ônibus sentindo a estranha sensação de que Kurt acabara de passar por ali há poucos minutos.

Entre tantos lugares (que merecem um outro papo), destaco dois pontos cruciais dessa trilha.

1. O pub Linda’s Tavern é consensualmente aceito como o último local onde Kurt Cobain foi visto em público.

Ele entrou no bar sozinho, pediu alguns drinks, respondeu desanimado aos elogios e agradecimentos da incrédula proprietária e partiu sem dizer nenhuma palavra, tomado pela apatia que já havia se tornado habitual. Foi realmente estranho sentar no balcão do bar, pedir uma cerveja e encarar a porta e sua vista da calçada, imaginando Kurt saindo por ali para nunca mais ser visto.

A fachada do Linda's Tavern tem se mantido praticamente igual desde a noite em que Kurt Cobain foi visto vivo em público pela última vez.
A fachada do Linda’s Tavern tem se mantido praticamente igual desde a noite em que Kurt Cobain foi visto vivo em público pela última vez.

2. A mansão à beira do Lake Washington é onde Kurt deu fim ao labirinto que criou pra si mesmo ao longo da vida. 

A casa hoje já pertence a novos proprietários, e antes disso já teve o cômodo onde seu corpo foi encontrado demolido, de forma que pouco há de físico e concreto pra se ver ali. O que vale é o que se sente na atmosfera do lugar.

Ao lado da casa existe uma pequena praça, o Viretta Park, com um único banco de madeira que hoje serve de pequeno santuário para os fãs. Vizinhos da época afirmam que avistavam com frequência Kurt fumando e comendo maçãs nesse banco durante as madrugadas. Arrepios percorreram a minha espinha quando ao chegar ao local, encontrei uma maçã deixada por algum outro fã.

Parecia o último sopro de vida da nossa jornada.

O banco de madeira solitário no Viretta Park, vizinho à mansão, tem servido como templo de homenagens para fãs de Kurt Cobain desde 1994. O telhado da casa onde o músico se suicidou pode ser visto entre as árvores no canto superior direito da foto (detalhe).
O banco de madeira solitário no Viretta Park, vizinho à mansão, tem servido como templo de homenagens para fãs de Kurt Cobain desde 1994. O telhado da casa onde o músico se suicidou pode ser visto entre as árvores no canto superior direito da foto (detalhe).

Ao fim da via sacra, eu estava completamente exausto, fisica e psicologicamente. Queria ir para o hotel, dormir, chorar, voltar no tempo. Achava tudo triste demais.

Na manhã seguinte, descansado e contagiado pelo raro sol da baía da cidade, eu já estava melhor: era nosso último dia em Seattle e eu me sentia leve e agradecido pela chance de desbravar essa trilha e reverenciar o cara que, mesmo sem nunca ter me servido de exemplo, me deu o Rock de presente.

Partimos para o último passeio da trip: Experience Music Project Museum, um dos lugares mais legais que já pisei em toda minha vida. Um complexo todo dedicado à música e ao Rock, com exposições permanentes sobre Nirvana, o grunge e Jimi Hendrix – praticamente um sonho.

O Experience Music Project Museum em Seattle é um verdadeiro templo para os amantes de música e Rock. Exposições permanentes sobre Nirvana, o Grunge e Jimi Hendrix convivem com exposições interativas que convidam os visitantes a tocar instrumentos e gravar suas demos em micro-estúdios.
O Experience Music Project Museum em Seattle é um verdadeiro templo para os amantes de música e Rock. Exposições permanentes sobre Nirvana, o Grunge e Jimi Hendrix convivem com exposições interativas que convidam os visitantes a tocar instrumentos e gravar suas demos em micro-estúdios.

Lá, fui nocauteado por uma imagem que me ajudou a desvendar finalmente o grande mistério em torno da personalidade de Kurt.

Um pequeno e discreto painel (foto abaixo) instalado no corredor final da exposição Nirvana: Taking Punk to the Masses, exibia uma foto na qual Kurt repousava de forma ironicamente tranquila entre as ferragens de uma bateria destroçada, após um de seus clássicos saltos mortais em uma apresentação no tradicional Raji’s em Los Angeles, no ano de 1990.

A exposição permanente no EMP Museum de Seattle "Nirvana: Taking Punk to the Masses" traz acervo inédito de fotos, memorabilia, áudio e vídeos da banda.
A exposição permanente no EMP Museum de Seattle “Nirvana: Taking Punk to the Masses” traz acervo inédito de fotos, memorabilia, áudio e vídeos da banda.

O olhar calmo e sereno, a expressão confortável apesar dos inevitáveis hematomas: era como um animal selvagem que só encontra a paz quando confronta e dilacera seus inimigos, seus instintos e seus medos.

Dor, paz, violência, contemplação: tudo estava ali, em uma única imagem, bem na minha frente. Era o nirvana de Kurt, no sentido mais punk que o conceito budista poderia ter. Era também o meu nirvana, um prêmio de consagração dessa viagem histórica: eu havia finalmente entendido um pouco melhor Kurt Cobain.

Essa foto ficou guardada na minha cabeça – e em uma pasta onde salvo meus fundos-de-tela preferidos no meu computador – durante uns 6 meses. Era praticamente um troféu pessoal.

Foi quando em junho desse ano o Demiro, meu sócio na Santo Rock e responsável pelo desenvolvimento das nossas coleções, convocou uma reunião para discutir a pauta de lançamentos desse verão.

“Acho que já passou da hora de fazermos uma homenagem monstra ao Nirvana, galera!” – disse.

Imediatamente aquela imagem se materializou na minha frente e um filme com todos os passos daquela viagem rodou pela minha cabeça. A reunião foi se tornando uma conversa específica sobre a criação dessa nova peça. Depois de compartilhar com todos a foto e sua história (e um breve relato da minha viagem), Demiro fechou a ideia:

“Cara, que foda! E olha, tem uma frase insana que ele usava numa guitarra que tem tudo a ver com essa imagem.”

"IF IT'S ILLEGAL TO ROCK N ROLL THEN THROW MY ASS IN JAIL" - a frase foi escrita por Kurt em uma de suas guitarras em 1989.
“IF IT’S ILLEGAL TO ROCK N ROLL THEN THROW MY ASS IN JAIL” – a frase foi escrita por Kurt em uma de suas guitarras em 1989.

Pronto. A sala explodiu. Quando conseguimos visualizar a frase “If it’s illegal to Rock n Roll then throw my ass in jail” sobreposta à imagem do Raji’s, não restaram mais dúvidas. Estávamos diante de uma das criações mais poderosas que nossa equipe já havia visto. O resto é história.

Isso explica em partes o fato dessa peça ter se tornado um sucesso de vendas instantaneamente no momento em que lançamos nossa coleção Wild Saints há algumas semanas.

Temos alertado há algum tempo que nossos estoques são realmente reduzidos e ainda mais concorridos nessa época do ano. Trata-se de uma limitação que enfrentamos por ser uma marca independente, nadando com os tubarões e contra a maré no Brasil.

Por isso, sugiro que caso você tenha curtido essa peça, garanta imediatamente a sua. É a maneira mais segura de evitar a situação bem chata de ter que aguardar por um reprint. Aos poucos superaremos também esse obstáculo, pode ter certeza!

A maneira como desbravamos esse universo, misturando nossas experiências pessoais de infância, viagens e papo com amigos, gera criações que vão muito além de simples estampas. Revivemos a história que cada uma delas conta.

Isso só é possível porque fazemos as coisas com o coração. E isso, cada vez mais, é para poucos que se permitem fazê-lo.

Se quiser falar sobre Nirvana, grunge, sobre essa trip histórica que eu fiz (tem muitas outras coisas sobre Alice in Chains, Soundgarden, Pearl Jam, Jimi Hendrix e etc) ou sobre qualquer outra coisa, me escreve. Tenho feito ótimos amigos e parceiros de Rock ao longo dessa jornada aqui.

“Peace, Love, Empathy”

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About Marco Sinatura view all posts

Rocker e Sócio-Fundador. Obcecado por Rock n Roll, fanático por literatura contemporânea e ferrenho defensor da cultura digital, encontrou na Santo Rock seu canal de conexão com o mundo, vivendo suas crenças, expondo suas ideias e trocando experiências com a comunidade rockeira.

3 Comments Join the Conversation →

  1. André Kiss D'Aryes

    Cara Parabéns pela iniciativa de trazer a nós todo o acervo e conhecimento que jamais deve ser esquecido. ..vida longa a o Rock n Roll.

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  2. Raul

    Gostei.

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  3. HERMAN

    DEMAIS CARA,PARABÉNS PELA HISTORIA E PELO BLOG,SENSACIONAL,

    Reply

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