O casamento mais duradouro dos Rolling Stones

E aí, rocker, tudo bem?

Já posso sentir o chão tremendo. Ao longe, o som pedregoso da avalanche avançando em nossa direção. O choque já é inevitável, e a essa altura só nos resta guardar nossas posições e encarar o que está por vir.

São os Rolling Stones, se aproximando para mais uma série de apresentações impetuosas por aqui. Será a quarta vez que eles tomarão o Brasil, e já prevejo o rastro de excitação e nostalgia que será deixado em São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre nos próximos dias.

Algo me diz que a comoção e o impacto dessas apresentações serão maiores do que qualquer outra passagem dos caras por aqui. Explico.

A “Olé Tour”, que vai recortar a América Latina entre fevereiro e março desse ano, tem ganhado contornos apoteóticos. Um capítulo final começa a ser escrito, e ele tem tudo pra ser tão grandioso quanto o restante dessa história de mais de 50 anos.

Quem me conhece sabe que não me deixo levar por pessimismo ou mimimi quando rola aquele papo de “nossos ídolos estão morrendo e o que será do Rock agora?”. É justamente esse desprendimento que me permite ir ao show dos Rolling Stones sem nenhuma gota de tristeza, preocupação ou saudosismo.

Eu só quero estar lá no dia 24 de fevereiro (obrigado pelos ingressos, cunhado-irmão!) e presenciar, com meus próprios olhos, um dos atos de encerramento de uma relação simpática e gloriosa entre a banda e o Brasil, que com certeza nos rendeu boas histórias ao longo dos anos.

Keith Richards passeia pela praia no Rio de Janeiro em 1995. Apesar de ser a primeira passagem oficial dos Stones pelo Brasil, a relação da banda com o país havia começado muitos anos antes, como um destino de férias e refúgio criativo, ainda na década de 60.
Keith Richards passeia pela praia no Rio de Janeiro em 1995. Apesar de ser a primeira passagem oficial dos Stones pelo Brasil, a relação da banda com o país havia começado muitos anos antes, como um destino de férias e refúgio criativo, ainda na década de 60.

Antes de mergulhar nessa caso de amor entre Brasil e Stones, preciso confessar algo.

Eu até que demorei pra desenvolver uma admiração verdadeira pelos Stones. Não estava entre minhas primeiras bandas favoritas na adolescência. Sempre respeitei, mas houve um tempo que não tocava no meu disc-man Aiwa surrado. Dá pra acreditar?

Hoje, mais calejado, vejo que me faltava naquela época um amigo em comum com a banda, aquele alguém pra te apresentar, falar bem de você e pagar uma rodada de cerveja pra quebrar o gelo entre dois desconhecidos. Me faltava QI. Quem indicasse.

Meu pai, fã fervoroso de Beatles, sempre esteve ocupado demais – ouvindo Beatles. Tardou, mas não falhou. Na faculdade, finalmente desenvolvi o QI que faltava.

De aniversário, ganhei de um amigo (que eu não imaginava ainda, mas viria a se tornar meu sócio-irmão na Santo Rock) o livro “The Beatles vs The Rolling Stones: A Grande Rivalidade do Rock’n’Roll”.

Não havia maneira melhor de me introduzir à obra desses monstros: dissecando a música de ambas as bandas ao botar à prova toda a rivalidade criada pela mídia na época (e que contagiava os garotos de ginásio como meu pai).

Livro The Beatles vs The Rolling Stones: A Grande Rivalidade do Rock n Roll, escrito por Jim Derrogatis e Greg Kot retrata de forma leve e bem-humorada a rivalidade do ponto de vista dos autores que, apesar de amigos, divergem quando o assunto é qual banda é a melhor.
Livro The Beatles vs The Rolling Stones: A Grande Rivalidade do Rock n Roll, escrito por Jim Derrogatis e Greg Kot retrata de forma leve e bem-humorada a rivalidade do ponto de vista dos autores que, apesar de amigos, divergem quando o assunto é qual banda é a melhor.

As várias passagens riquíssimas retratadas no livro me fizeram despertar para a algo bastante único nos Rolling Stones. A estrada sempre serviu de combustível e fonte da juventude para esses senhores – mais que o dinheiro, a fama ou as drogas. O verdadeiro barato deles sempre foi a estrada.

E foi aí que eles começaram a me ganhar pra valer.

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Ao mergulhar nas histórias de turnês e viagens dos Stones mundo afora, descobri como o Brasil sempre esteve presente ao longo de todos esses anos – seja como destino de férias, refúgio criativo ou local de trabalho.

Observando a relação de longa data dos Stones com o Brasil, me surge um lampejo de esperança, uma faísca que, mesmo pequena, se bem manuseada pode se tornar um verdadeiro incêndio. Os Rolling Stones ainda tem o poder de fazer o público brasileiro e a mídia de maneira geral, prestarem atenção no Rock n Roll. E só nós, rockers, sabemos o quanto é difícil garantir alguma atenção e visibilidade para o Rock em nosso país.

Por isso, quando decidimos que era preciso homenagear esses monstros do Rock n Roll com uma estampa nova e exclusiva, fomos à luta e debulhamos a história desse namoro antigo – e quente – que os Stones tem com o Brasil. Separamos algumas evidências de que, independente de quantas vezes os Stones ainda consigam vir ao Brasil, eles definitivamente já deixaram sua marca por aqui. Se liga.

“Alô, Mick, tá vindo pro Brasil? Cancela o hotel, fica na minha fazenda!”

Mick Jagger foi o primeiro a aportar em terras brasileiras em 1968. Meses depois, ele retornou acompanhado de Keith Richards e juntos compuseram “Honky Tonky Women”, em uma fazenda no interior de São Paulo, onde ficaram hospedados a convite pessoal do banqueiro Walter Salles. Porra, imagina o orgulho desse cara contando isso na mesa do bar.

Em 1968, Mick Jagger voltou ao país trazendo Keith Richards e acabaram compondo boa parte de pelo menos dois clássicos por aqui: Honk Tonk Women e Sympathy for the Devil. PS: o rosto dos Stones não podia ser mostrado na maioria das fotos dessa passagem devido a um acordo entre gravadora e imprensa brasileira (loucura, né?).
Em 1968, Mick Jagger voltou ao país trazendo Keith Richards e acabaram compondo boa parte de pelo menos dois clássicos por aqui: Honk Tonk Women e Sympathy for the Devil. PS: o rosto dos Stones não podia ser mostrado na maioria das fotos dessa passagem devido a um acordo entre gravadora e imprensa brasileira (loucura, né?).

“Satanismo nada, isso é samba-stones…”

Ainda no mesmo ano, Jagger e Richards compuseram e gravaram a canção “Sympathy for the Devil”, inspirados por uma visita a um centro de candomblé na Bahia. Na época, acusações de que os Stones eram satanistas alimentaram a imagem de bad boys que pairava sobre a banda. Eles se defenderam dizendo que, na verdade, a música não passava de uma reinterpretação do samba brasileiro ao modo Rolling Stones (então tá).

“Pô, deixa os meninos cantarem, capitão!”

A primeira oportunidade real dos Rolling Stones se apresentarem no Brasil, surgiu em 1975, durante a “Tour of the Americas” (que previa, além dos Estados Unidos e Canadá, shows no Brasil, México e Venezuela). Fato é que os shows, mesmo após anunciados, tiveram de ser cancelados nos 3 países latinos devido à censura e a preocupação dos governos com relação à imagem de desordeiros e drogados que a banda tinha. Daora, só que não.

“Nem toda primeira vez é ruim, baby

Tivemos que esperar 20 anos pra que essa janela se abrisse novamente. E dessa vez, pra nunca mais se fechar. Em 1995 os Rolling Stones, em turnê de divulgação do álbum “Voodoo Lounge” passaram por São Paulo e Rio de Janeiro – com direito a transmissão da Rede Globo do último show carioca e uma performance foderosa de “Angie” cantada em coro por uma multidão no Maracanã.

Para a abertura dos shows, os Stones convidaram pessoalmente Rita Lee, que mesmo vivendo à base de chá-de-cogumelo e Lexotan na época, conseguiu se recuperar de um coma semanas antes e fazer todas as aberturas com relativa desenvoltura.

Em 1995 os Stones fizeram suas primeiras apresentações no Brasil e inauguraram a tradição de shows épicos e megalomaníacos por aqui. A turnê "Voodoo Lounge" contava com um dos palcos mais impressionantes da época e foi considerada a excursão mais rentável da história da indústria musical até então, faturando US$ 340 milhões em pouco mais de 18 meses de duração.
Em 1995 os Stones fizeram suas primeiras apresentações no Brasil e inauguraram a tradição de shows épicos e megalomaníacos por aqui. A turnê “Voodoo Lounge” contava com um dos palcos mais impressionantes da época e foi considerada a excursão mais rentável da história da indústria musical até então, faturando US$ 340 milhões em pouco mais de 18 meses de duração.

“Jagger got the moves like Jagger”

Em 1998, a banda marcou retorno ao Brasil para mais dois shows da turnê “Bridges to Babylon”, contando com ninguém menos que Bob Dylan como atração de abertura. Foi nessa época que o Mick se enroscou com a Luciana Gimenez.

Mesmo casado, a estrada falou mais alto, e o resultado não poderia ser outro: o primeiro brasileiro com sobrenome (e herança) de rockstar gringo fodão.

Como consolação, tenho um tio-avô que jura de pé junto que Sinatura e Sinatra vem da mesma família italiana. Cosa nostra, capisce? Só me sobra um “U” e me faltam alguns milhões na conta.

“A bigger everything”

O maior palco da história do Rock a receber uma única banda.
A maior platéia da história do Rock para assistir a uma única banda.
O maior evento a céu aberto da história do Rock.

Essas são marcas gigantescas e megalomaníacas que provam o estrondoso sucesso que a turnê “A Bigger Band Tour” atingiu ao promover o show gratuito nas areias de Copacabana em 2006. Aproximadamente 1,5 milhão de pessoas se apertaram pra conferir esse show histórico.

E desse posso falar com propriedade, porque eu estava lá. Apertado, suado, sujo de cerveja, sem banheiro pra usar, sem dormir direito por dois dias – e ainda assim, extasiado.

Talvez eu nunca consiga sentir sensação parecida como o arrepio que tive na introdução de “Jumpin Jack Flash”, que abriu o show e desencadeou uma tempestade de areia monstruosa assim que a galera começou a pular junto.

Em 2006, nas areias de Copacabana, mais de 1,5 milhão de pessoas assistiram à apresentação dos Rolling Stones. O show detém até hoje o recorde de maior platéia da história da música para assistir a uma única banda. Fato curioso: até mesmo um parto foi registrado durante o evento.
Em 2006, nas areias de Copacabana, mais de 1,5 milhão de pessoas assistiram à apresentação dos Rolling Stones. O show detém até hoje o recorde de maior platéia da história da música para assistir a uma única banda. Fato curioso: até mesmo um parto foi registrado durante o evento.

Mais incrível ainda foi olhar ao meu redor durante o encerramento do show com “Satisfaction” e ver gente de todas as idades, cores, classes sociais, regiões do país, pulando e cantando junto – sabendo ou não falar inglês, sabendo ou não o tamanho dos Stones, sabendo ou não tudo o que os caras passaram, criaram e conquistaram em 50 anos de carreira.

Pouquíssimos artistas viveram pra ver sua obra tão popular e democrática ao redor do mundo. E isso não cai do céu. Isso é resultado de talento e trabalho duro. Caralho, esses caras não devem ter noção do quão foda é botar a galera pra dançar Rock no Brasil. Isso devia estar no Guinness também, junto com os recordes que descrevi acima.

“Sympathy for Brazil”

Chegamos a 2016, o capítulo em branco, o epílogo dessa história tão foda da simpatia dos Stones pelo Brasil. Aposto meu vinil do “Sticky Fingers” que as apresentações serão épicas e dignas da magnitude da longa história de amor que os Stones tem com esse país. Não tem como ser de outra forma.

Pensando nisso, resolvemos homenagear essa jornada heróica com uma estampa exclusiva de tiragem limitadíssima. Unindo o clima vintage dos primeiros anos da banda, com as datas das passagens oficiais pelo Brasil, desenvolvemos a peça definitiva para celebrar o sentimento de Sympathy for Brazil e a lista de feitos antológicos que os Stones realizaram por aqui.

Indo ou não no show, comprando ou não nossa peça exclusiva, não deixe de celebrar essa história tão rica dos Rolling Stones com o Brasil. Mais um capítulo está sendo escrito bem diante dos nossos olhos e não podemos perder nenhum detalhe.

Obrigado por aquele livro, Demiro. Hoje, termino essa newsletter aliviado e alegre por, mesmo que tardiamente, ter me tornado um fã incondicional dos Rolling Stones.

“You can’t always get what you want
But if you try sometimes, yeah
You just might find you get what you need”
– You Can’t Always Get What You Want, 1969

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Rocker e Sócio-Fundador. Obcecado por Rock n Roll, fanático por literatura contemporânea e ferrenho defensor da cultura digital, encontrou na Santo Rock seu canal de conexão com o mundo, vivendo suas crenças, expondo suas ideias e trocando experiências com a comunidade rockeira.

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