Mark, o roadie da banda mais perigosa do mundo

E aí, rocker, tudo bem?

Hoje relembro uma história diferente de tudo o que você já leu aqui. Um testemunho de acontecimentos que marcaram a história do Guns n Roses para sempre.

Sede. Fome. Cansaço.
Essas palavras dançavam bem na frente da minha vista turva.

Minha camiseta favorita do Aerosmith já estava completamente imunda e empapada de suor e o horizonte parecia impossível de se alcançar, ainda mais àquela altura, em que as minhas pernas já pesavam toneladas depois de tanta caminhada carregando aqueles equipamentos.

O sol, aquele grande filho da mãe, mais parecia um cozinheiro sádico, nos refogando calma e lentamente, de um lado para o outro naquela estrada deserta enquanto começávamos a duvidar se tudo aquilo era real ou se ainda estávamos viajando por causa da ressaca da noite anterior.

– Caras, um carro! Dêem sinal! – alguém rompeu meus devaneios, me trazendo de volta à nossa missão.

– Eu vou é pular na frente desse desgraçado – o Steven já estava puto.

Steven não pulou, claro que não. Ele nem se mexeu, aquele falastrão. Lá se ia mais um pai de família assustado em sua perua Ford sem nem ao menos cogitar aceitar nosso pedido de carona. Eu sei, a gente era esquisito, talvez eu mesmo não pararia pra mim mesmo. Que loucura.

Eu sempre odiei ser o mala que surge no auge do stress pra dizer “eu avisei”. Mas foi mais forte do que eu.

– Eu avisei.

– Ah eu vou te matar, seu desgraçado! –  é… o Steven já estava realmente bem puto.

Rolamos pelo chão mas aquilo era uma grande piada. Não tínhamos força alguma para brigar.

As horas pedindo carona já haviam nos castigado o suficiente. Parecíamos dois irmãos disputando o controle da TV mas sem coragem para lutar de verdade por medo da provável bronca que levaríamos dos nossos pais se fôssemos pegos. Talvez a gente não passasse disso mesmo.

Os caras nos separaram, mas eu mal conseguia ficar em pé. Ofegante e exausto, eu dava o meu melhor para me manter apoiado sobre meus joelhos. Uma voz ecoou sobre a minha cabeça, provavelmente era o Izzy.

– O Mark está certo. Ele avisou ontem que esse carro precisava de um mecânico antes de pegar a estrada, mas a gente cagou pro que ele disse. Agora já era, não adianta ficar nervoso com ele.

old-tireMe deram razão. Finalmente algum daqueles vadios me deu razão, e mesmo sem isso resolver a nossa situação eu me senti maravilhosamente bem. Coisas do ego humano, uma grande babaquice na verdade.

Bem no fundo, eu sabia que estávamos começando as coisas com o pé esquerdo.

Há três dias, dois caras da banda tinham mandando a gente praquele lugar, e às pressas arrumamos uns malucos para os seus lugares: um tal de Slash, guitarrista gente fina (mas meio esquisito) que já tinha tocado com o Duff na banda Road Crew, e o porra-louca do Steven, baterista que sei lá de onde veio.

O fato é que estávamos rumo à nossa primeira turnê fora da grande Los Angeles e tudo estava dando muito errado pra gente.

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Nosso carro havia quebrado e estávamos perdidos em algum fim-de-mundo ao norte da California, completamente derrotados e famintos, rezando por uma carona. Certo do atraso para o primeiro show em Seattle, eu começava a me perder na minha habitual auto-flagelação:

“Por que é que eu sempre me meto nessas frias? Como eu posso ser tão estúpido a ponto de me enfiar numa turnê zicada com esse bando de psicopatas? Que merda eu tô fazendo aqui como roadie desses caras? Porque eu sempre faço tudo que o Axl me pede?” 

NEWS-BLOG-HARD-ROCK-ATTACK5-hoenagem-novaEssa é só uma das inúmeras fantasias que eu criava na minha infância, que me colocavam como testemunha ocular de histórias e causos das minhas bandas favoritas.

Eu era uma espécie de viajante do tempo, um grande explorador do Rock que podia reencarnar em qualquer época, qualquer lugar, na pele de qualquer personagem.

Eu era o garçom do jantar onde os Beatles experimentaram LSD pela primeira vez.

Eu era o caseiro da chácara onde o Led Zeppelin havia composto Immigrant Song.

Eu era a árvore que havia feito sombra para Janis Joplin e Serguei se ralarem.

Mas nada se comparava às minhas aventuras como o roadie do Guns n Roses, especialmente a essa, sobre a primeira turnê da banda: a Hell Tour de 1985.

Famosa pelo fato de que eles tiveram que pedir carona até Seattle só para fazer um show para 13 pessoas por um cachê de 50 dólares. Tudo isso depois que o carro, que transportava a banda e o equipamento, quebrou no meio da estrada.

Guns n Roses por volta de 1985, em seus primeiros meses de formação. Foi com essa formação clássica que a banda encarou e sobreviveu à mal-sucedida Hell Tour até Seattle.
Guns n Roses por volta de 1985, em seus primeiros meses de formação. Foi com essa formação clássica que a banda encarou e sobreviveu à mal-sucedida Hell Tour até Seattle.

Na época, todos meus amigos queriam ser o Axl ou o Slash. Eu só queria ser o Mark, um roadie qualquer do Guns, a banda mais perigosa do mundo.

Eu queria fazer parte das festas no camarim depois do show, dos quebra-quebras de quarto de hotel, da emoção de lotar arenas e gravar canções geniais em estúdios monstruosos ao redor do mundo.

Tudo isso sem querer ser um Gunner propriamente dito. Talvez eu sempre tenha os achado rockers sobrenaturais. Nem em minhas fantasias eu estava à altura deles. Eu sonhava em simplesmente estar por perto – talvez não tenha mesmo nascido para ser rockstar.

O fato é que essa volta do Guns n Roses aos holofotes em 2016 tem causado muito mais efeito em mim e no mundo ao meu redor do que eu imaginava.

De repente me pego aqui revivendo todas essas memórias (as que aconteceram e as que não aconteceram) e passo a entender melhor a importância do Guns n Roses na história do Rock.

Axl Rose e Slash em 2016, em show realizado no último final de semana em Las Vegas. Na foto, detalhe para o trono emprestado por Dave Grohl (Foo Fighters) para que Axl pudesse realizar os shows, mesmo após ter fraturado o pé logo na primeira apresentação.
Axl Rose e Slash em 2016, em show realizado no último final de semana em Las Vegas. Na foto, detalhe para o trono emprestado por Dave Grohl (Foo Fighters) para que Axl pudesse realizar os shows, mesmo após ter fraturado o pé logo na primeira apresentação.

Como coroação e ponto alto dessa re-união, o Guns toca nesse final de semana – dias 15 e 17/04 – no Coachella (um festival californiano que tem se especializado em promover reuniões improváveis).

Existe inclusive a expectativa de que os shows sejam transmitidos no Youtube, pela própria produção do festival, vale ficar ligado. Não preciso nem dizer que estamos uma pilha de nervos por aqui e que não consigo disfarçar a esperança ingênua de um show no Brasil. Já disse outras vezes, temos propensão a sonhar.

Em meio a todo esse furor, vimos muitas opiniões e críticas divergentes a respeito da performance e da qualidade dessas primeiras apresentações da banda em Los Angeles e Las Vegas.

Muita gente maravilhada com um acontecimento que não parecia mais possível e uns outros poucos frustrados por não encontrar na banda o mesmo vigor de sua época áurea (jura, gente?).

Aqui na Santo Rock não existe espaço para essa discussão. A reunião do Guns deve ser comemorada e celebrada em alto e bom som, tanto por seu legado, que redefiniu os limites do Hard Rock, quanto pelo privilégio de assistirmos o reencontro de músicos talentosos que conseguiram se conectar com milhões de rockers ao redor do mundo através de sua arte.

Isso tem um valor inquestionável para nós.

guns peça
Por isso, fizemos nossa parte nesse falatório todo e lançamos uma nova e exclusiva camiseta em homenagem ao Guns n Roses na semana passada.

A partir dos ícones clássicos da banda como a caveira, a cartola, as rosas e as pistolas, fizemos uma releitura que traduz a atmosfera melódica e suja da banda que permitiu espaço para que nossa perspectiva e sentimento pela banda também se manifestassem.

Temos recebido muitos elogios a respeito desse e dos demais lançamentos da linha Hard Rock Attack, justamente por termos encontrado uma maneira sincera e inédita de retratar esses gigantes que são tão clássicos.

Você já é de casa e provavelmente sabe que trabalhamos com estoques limitados que costumam se esgotar em pouco tempo.

Nessa coleção, isso não tem sido diferente, e já começamos a chegar nas últimas unidades de alguns tamanhos. Sugiro que você dê uma conferida agora e não deixe a chance de garantir as suas próximas peças favoritas.

NEWS-BLOG-HARD-ROCK-ATTACK6Você pode até achar toda essa comoção em torno dos caras um pouco exagerada, mas algo me diz que não é. Até os mais consagrados rockstars devem concordar comigo, tamanho afinco e alvoroço que eles mesmos estão demonstrando a cada apresentação do Guns. E sabe por quê?

Porque estamos todos atônitos e excitados com a capacidade que o Guns n Roses tem, de a partir do seu status de lenda, reacender essas memórias, inspirar e incentivar novas gerações a criarem algo novo a partir do que é clássico, de nos fazer sonhar e, principalmente, de nos provar que o Rock é uma das formas de expressão e manifestações culturais mais poderosas que existe.

Tão poderosa que é capaz, inclusive, de transformar um Marco qualquer em Mark: O Roadie da Banda Mais Perigosa do Mundo.

“Take me down to the paradise city
Where the grass is green and the girls are pretty
Take me home (oh, won’t you, please, take me home?)”

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About Marco Sinatura view all posts

Rocker e Sócio-Fundador. Obcecado por Rock n Roll, fanático por literatura contemporânea e ferrenho defensor da cultura digital, encontrou na Santo Rock seu canal de conexão com o mundo, vivendo suas crenças, expondo suas ideias e trocando experiências com a comunidade rockeira.

9 Comments Join the Conversation →

  1. Cixx roadie do Motley Crue

    Filho da mãe! Eu tava acreditando hahahaa. Mas eu te entendo, na minha cabeça eu sou amiga de muita gente foda e tô sempre com uma história de backstage.

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    1. Marco Sinatura

      Difícil não se deixar levar, Cixx, me desculpa! Talvez eu me lembre de você em alguma daquelas festas loucas em Los Angeles, quando você acompanhava os pirados do Motley. 😉

      Reply (in reply to Cixx roadie do Motley Crue)
  2. Carlos messias

    É ai esses caras até hj sao cachorro grande. Ótima matéria, mas a respeito do banco que o axl esta sentado, o nirvana nao era tretado com o guns? Numa historia contada pelo finado kurt onde ele dizia que num show onde as duas bandas estavam o axl chegou e o kurt e a muié dele a love estavam no camimho do axl que pediu para ele retirar aquela vagabunda do caminho dele… Entao acho que o dave nem troca idéia com eles, sem contar que tem show do foo que ele até cospe quando fala de guns… Vide youtube…

    Reply
    1. Marco Sinatura

      Fala Carlos, tudo bem? Cara, o Guns e o Nirvana (mais especificamente Axl e Kurt) tretaram forte em VMA – acho que foi o de 1992. Já vinham rolando umas trocas de farpas por conta da letra de One in a Million (que pega pesado com imigrantes, negros e homossexuais), que fez o Kurt sair em defesa dessa galera e apontar pro Guns como uma banda de rock misógina e machista. O Axl estava puto com essa história e nesse evento foi tirar satisfação com o Kurt (e com a Courtney, que estava junto no dia). Os dois começaram a tirar uma onda com ele, até convidaram-no ironicamente pra ser padrinho da filha deles e aí ele ficou maluco. Chamou os seguranças pra tentar pegar o Kurt de porrada – que se escondeu num trailer. Na época o Dave e o Krist do Nirvana tomaram as dores do Kurt, mas acho que não era algo pra valer mesmo. Depois de tantos anos, parece que a maturidade chegou pra todo mundo. Melhor assim, né?

      Reply (in reply to Carlos messias)
  3. Arnaldo

    Bem bacana o texto e a criatividade do escritor.

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    1. Marco Sinatura

      Valeu, Arnaldo. O Rock tem dessas de tirar a gente da realidade por alguns instantes mesmo. Um abraço.

      Reply (in reply to Arnaldo)
  4. Yago

    Desgraçaaado, eu cai direitinho! E é EXATAMENTE isso, Guns N’ Roses é aquela locomotiva implacável que gostando ou não, quando volta a estrada sai por aí chutando bundas quando aparece.
    Uma locomotiva de guerra, blindada, cheia de misseis, canhões, e artefatos nucleares prontos para serem acionados, com condutores psicóticos e claro… em rota de colisão.

    Reply
    1. Marco Sinatura

      É isso aí, Yago! Adorei a comparação com uma locomotiva. Funciona demais com a pegada da banda (será que é por isso que curto tanto Night Train?

      Reply (in reply to Yago)
  5. Santo Rock lança nova estampa do Guns n Roses - A RADIO ROCK - 89,1 FM - SP - A RADIO ROCK – 89,1 FM – SP

    […] do ponto de vista de Mark, um inusitado roadie que poderia ser qualquer um de nós. Acesse o post no blog da Santo Rock e pegue carona com o Guns nessa viagem […]

    Reply

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